terça-feira, 26 de setembro de 2017

É passageiro

É passageiro. Se parece como uma travessia de quilômetros de extensão de um rio, contra a correnteza, mas é passageiro, uma hora se esvai.  É passageiro. Nada dura tanto ao ponto de te esgotar. Você pode até sangrar, mas, no final, vai perceber que é passageiro. Aquilo que hoje parece te fazer enfraquecer, em algum momento, será sua fortaleza. É passageiro. O peito apertado, o suor das mãos e a angustia que toma o corpo, no fim, são passageiros.

A inquietude da alma que sentimos gritar dentro da gente, na calada da noite, irá descansar e você verá que foi passageiro. O pulso desnorteado do coração uma hora irá voltar à rota normal e vai se deitar no peito como quem dorme no colo da mãe. A música que toca no rádio e que hoje faz você maldizer dos acontecimentos, será a mesma que seguirá como trilha quando você perceber que foi passageiro.

Assim como a alegria, a tristeza também é passageira.


A notícia infeliz é que todos nós, sem exceção, passamos por isso. A boa nova, no entanto, é que tudo é passageiro.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

“Curte” ou “compartilha”? Acho que minha vida poderia ser melhor

Após um longo dia de trabalho, cheguei em casa e liguei a TV. Sintonizei em qualquer coisa que não me fizesse prender a atenção, um seriado bobo de comédia norte-americana. Tireis os sapatos e a camisa. Estiquei as pernas no sofá enquanto “zapeava” as atualizações das redes sociais. Nas timelines apenas memes e textão (Nossa, como eu odeio textão! Embora, por vezes, eu queime minha língua por isso, confesso). A política me fascinava. Discutir política me fascinava. Porém, de uns anos pra cá, tenho tido (muita!) preguiça de falar sobre. Confesso que essa atitude fez de mim uma pessoa menos amarga, menos odiosa.

Hoje me seguro para não “compartilhar” mais o que eu penso sobre qualquer coisa, principalmente política (A não ser que seja numa mesa de bar com amigos que tenham decência de levar uma conversa, que não me imponha suas opiniões e que me botem a pensar sobre outro prisma. Caso contrário, é perda de tempo. Eu não perco tempo). Até porque, honestamente, acho que as pessoas cagam para o que eu tenho a dizer. E a recíproca, tenho que dizer, é bem verdadeira também.

Deixei o celular sobre o braço do sofá e continuei, por mais alguns minutos, a assistir o seriado bobo de comédia norte-americana. Celular vibra. Nada demais, eram apenas amigos num grupo de WhatsApp repassando algo inútil, como fotos de mulheres nuas ou algum vídeo com pretensões jocosas. Para não ser o único mal educado do grupo e, mesmo sem ter prestado atenção ao “conteúdo”, respondo um “kkkkk” e vida que segue. O problema de responder com um “kkkkk” é que o indivíduo que repassou o meme se sente estimulado. Então, é bem possível que nos próximos minutos venha(m) outro(s) “conteúdo(s)” similar(es). Eu sei disso porque muitas vezes eu sou esse indivíduo (exceção feita às fotos de mulheres nuas. Disso eu não compactuo, mesmo).

Levanto, pego uma cerveja na geladeira e pego algo para petiscar durante um gole e outro. Fico de frente à TV, que continua reproduzindo o seriado bobo de comédia norte-americana, dou algumas risadas e... a tela do celular reproduz nova notificação. A foto que postei durante almoço, do meu prato de comida, ganhou novo “like”. Aqui eu preciso levantar uma nova questão: O que eu faço com o “like”? Pra que serve, afinal?! Ok, amigo leitor, eu sou refém desse sistema também. Distribuo “likes” a torto e a direito sem que houvesse amanhã. Mas a questão me veio enquanto escrevo, me desculpe. Enfim, não entendo muito bem esse meio de interação. É algo que existe para que alguém registre a visualização (Hey, eu vi sua foto!) como se isso fosse mudar algo. Porém, o fato de eu não entender direito, não significa que eu não os cace. Até porque não faria sentido algum eu publicar algo que não fosse pra ser visto por outras pessoas, certo? Certo.

O seriado bobo de comédia norte-americana chega ao fim. Comercial. Pego o celular e vou até a varanda. Ascendo um cigarro e dou um gole em minha cerveja, enquanto “zapeio” as atualizações das redes sociais. E quando eu menos espero...“kkkkk”, “like”, “compartilhar” “encaminhar”, “enviar”, “publicar”.


Bem, agora que já cumpri minhas tarefas, vou dormir. Não antes de desejar uma “boa noite a todos” no grupo da família.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Preciso escrever

O tempo está passando, preciso escrever. As palavras vão surgindo em minha cabeça e a soma das letras me trazem calmaria. Preciso escrever. A vida contada em palavras é sempre mais bela. Nas músicas, nos livros ou num simples pedaço de papel. Preciso escrever.

Escrever é uma arte que nos permite voar, saltar, correr, sorrir, chorar. As letras, somadas umas às outras, podem ser transformadas em uma arma letal. Palavras têm poderes e é preciso ter cautela ao usá-las.

Me desculpe, amigo, mas agora eu preciso escrever.

Escrever sem parar, juntar letras, formar frases, conjugar verbos. É verdade, não minto; eu preciso escrever. O caminho que nós percorremos até aqui são palavras em ação. Nossas vidas dariam um livro escrito à mão. O tempo, assim como a vida, é um caderno aberto em que a cada segundo são tomadas por novas palavras. Formando, assim, uma história contada através de textos bem ou mal acabados. Independentemente do final, eu preciso escrever.

Nem sempre seremos uma fábula de final feliz. Mas só por hoje eu não consigo esperar. Não tenho tempo a perder.

Preciso escrever.




sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Encontro perdido

Dia desses, enquanto voltava para casa após um longo dia de trabalho, avistei a uns 300 metros a mulher que anos atrás havia mudado minha  vida para sempre. Quando me dei a certeza de que se tratava mesmo dela e que há tempos não via, minhas pernas tremeram, minhas mãos suaram e meu rosto ficou na mesma coloração de um flamingo. Mesmo assim resolvi seguir meu caminho que era, inevitavelmente, em sua direção.

Quando estávamos a pouco mais de 50 metros de distância um do outro, ajustei minha camisa, centralizei meu cinto e dei o último "tapa" no cabelo. Aquela altura eu já ensaiava minhas primeiras palavras, pensava num assunto, sem temer qual seria sua reação. Estávamos bem mais próximos, eis que ouço seu telefone tocar. Antes mesmo que eu pensasse em qualquer coisa, ela tende seu telefone com um sonoro – OI, AMOR! Como você está?

Fiquei sem reação, mas agradeci aos deuses por ter colocado uma banca de jornal naquela mesma calçada e bem ao meu lado. Ela, ao atender ao telefone, encostou na parede bem próximo à bendita banca de jornal (Aleluia!) e continuou sua conversa. Enquanto isso eu folheava uma revista qualquer. Não preciso dizer que minha concentração na leitura era zero. Evitei provocar o mínimo de som para que pudesse prestar atenção apenas naquela conversa, que seria um divisor para minha estratégia de provocar ou não aquele encontro “inesperado”. E foi.

Escutei atentamente, na tentativa de desvendar quem era aquele interlocutor inconveniente do outro lado da linha. O dono da banca, que me olhava com os cantos dos olhos, já desconfiava que eu não estava ali para comprar nada, principalmente aquela revista que eu fingia ler enquanto ouvia aquela conversa.

Percebi que ela sorria enquanto ouvia aquele patético interlocutor falar. A medida que me enchia de coragem para provocar de vez aquele encontro e também acabar com a inoportuna ligação, percebi que ela estava mais envolvida no assunto com aquele desprezível ser.

Tomei uma decisão. Sair da banca de jornal e ir direto ao seu encontro. Estava decidido a ficar plantado em sua frente e acabar logo com aquilo. Porém, ao dar o primeiro passo fora da banca... – Senhor, a revista senhor! Eu que já estava absolutamente consternado, desejei me enfiar debaixo da prateleira de jornal. Pedi desculpas e tirei algumas notas do bolso, paguei.

Após pagar por uma revista que eu jamais iria ler, voltei ao meu plano original. Criei coragem e enchi os pulmões de ar. Fechei os olhos e fui em sua direção. Segundos depois de voltar a abrir meus olhos, enxerguei apenas uma parede. Ela, a mulher que havia mudado minha vida para sempre, como num passe de mágica, sumiu. Olhei para o outro lado da rua, olhei para os lados, girei meu corpo em 360° e nada. Perplexidade define aquele momento. Como aquilo pôde acontecer? Num estalar dos dedos eu perdi aquilo que outrora foi minha maior esperança: um encontro com ela. A chance de falar tudo que sentia por foi para o espaço. Perdi. A perdi de vista, perdi o time e perdi dinheiro (o da revista!). Acabei também me perdendo no tempo e não me dei conta que já passava das 20h.

Fui embora, como era de se esperar, perdido...

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

SP| Não foi o PT que perdeu. Todo nós perdemos

Não foi um partido que perdeu. Quem perdeu foi um projeto inclusivo. Uma das únicas cidades do país que tinha na pauta uma discussão focada aos direitos LGBTs, aos negros e negras, aos movimentos populares. Que via a população de rua com o mínimo de dignidade que merece. Quem perdeu foi um projeto que devolveu a cidade à população. Que fez São Paulo ser menos agressiva, menos hostil e mais viva.

Não, não foi o PT que perdeu. Na ordem do dia, o partido é o menos importante. Até porque muitos votos em Haddad vieram de pessoas apartidárias, muitas sem simpatia pelo Partido dos Trabalhadores. De pessoas que entenderam o que realmente estava em jogo.

Tenho absoluta convicção de que a maioria dos paulistanos que elegeu o projeto(???) de Dória, o fez sem nem saber do que se trata. Elegeu pelo ódio, pensando com o fígado. Sequer colocou na balança as demais propostas apresentadas pelos candidatos. Simplesmente colocaram em prática um plano nefasto de desgaste liderado pela grande mídia. Não houve bom senso, houve senso comum.

O que fica de reflexão é que nós, brasileiros, não precisamos discutir política. Nós precisamos entendê-la. E convenhamos, estamos muito longe disso.

Boa sorte a todos nós. Vai ter luta. Sempre.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Siga teu caminho

Para Aline S. Almeida Reis, com carinho.

Siga teu caminho.
Nas vitórias e conquistas,
Nos dias quentes ou frios,
Siga teu caminho.

Nas adversidades cotidianas,
Nas inevitáveis  intempéries,
Siga teu caminho.

Nos dias em que se ver longe de seus pais
E distante dos amigos, reúna forças e...
Siga teu caminho.

No sorriso mais contido
E na alegria mais retumbante,
Siga teu caminho.

E quando a saudade resolver apertar,
Respire fundo, infle os pulmões e
Siga teu caminho.

Porque do lado de cá,
Dezenas de pessoas torcem para que o teu caminho
Seja sempre o que te levar à felicidade.

Seja muito feliz!
Explore sua vida à exaustão
E não deixe nunca de seguir
O teu caminho.



segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Madrugada

Na madrugada ele acorda e anda até a sacada de seu apartamento. Acende um cigarro e passa a observar o silêncio. Nada de carros, nada de gente. Apenas o sopro do vento que ajuda a queimar a brasa de seu cigarro.

No horizonte, prédios.

As luzes das casas ao redor chamam a sua atenção. Aquele silêncio parece deixa-lo em paz. O faz sentir o único homem desperto naquele momento. Entre um trago e outro, um filme de sua vida começa a passar em sua cabeça. É hora de ter uma DR com a consciência.


Ele pensa no que fez, no que não faria e no que vai fazer. É como se aqueles segundos fossem um julgamento de seus atos. É o purgatório das suas escolhas. Ele sabe que não se corrige o que foi feito, mas sabe que é possível alterar o que será.


A medida que o tabaco do cigarro queima entre seus dedos, o homem se define como um “novo” ser. O amanhã que logo aponta no relógio é a sua nova chance de fazer diferente e, assim, seguir os próximos passos. Pelo menos até a madrugada seguinte.



segunda-feira, 4 de maio de 2015

Cotidiano em sentido horário

Pulou da cama, já atrasado para o trabalho, e correu para tomar um banho – banho, não – jogou rapidamente uma água no corpo. Retornou ao quarto e escolheu a roupa que o acompanharia pelo resto do dia. Como um vulto passou pela sala, entrou na cozinha e comeu o que tinha de pronto na geladeira. Saiu pela porta e, com a pressa que já estava minutos adiantada, quase que não esperou o portão abrir para batê-lo contra o batente de novo.

Correu para o ponto de ônibus e pegou o primeiro com destino à estação de trem mais próxima. Dividiu o espaço, que ali não tinha, com a multidão companheira pelos próximos 20 minutos. Olhava para o relógio que cercava seu pulso direito na tentativa de atrasar o tempo. Chega ao seu primeiro destino, a estação, e disputa cada passo com os demais – ganha quem chegar mais próximo da linha amarela  que põe fim à plataforma, em menor tempo. Pisar na linha é como ganhar alguns segundos de bônus, como naquele famoso joguinho de doces do celular.

A próxima batalha é enfrentar o enlatado de gente que vem no próximo trem. Como um verdadeiro contorcionista, precisa se moldar junto aos milhares de corpos e ainda se preocupar com “o espaço entre o trem e a plataforma”, além de “não impedir o fechamento das portas”. Longe do fim e com o dia apenas começando, seu próximo objetivo é sair dali quando chegar em seu destino e antes que as portas voltem a se fechar. Como um genuíno desbravador, ele consegue. Os ponteiros do relógio recusam o apelo do olhar esperançoso e cumpre, segundo a segundo, o seu dever.

Ele corre pelas escadas rolantes e procura a saída mais próxima. Aperta o passo nos próximos cinco minutos, que seriam dez de caminhada. Entra no escritório, cumprimenta os colegas, sinaliza sua chegada ao chefe e, ainda com a respiração ofegante, baixa os e-mails do dia na caixa de entrada. Na hora do almoço procura o restaurante que vai lhe servir mais rapidamente (Ele tem de voltar o mais rápido possível ao seu posto). Volta e termina sua jornada.

Caminha até o trem, se contorce entre os demais, se atenta com vão entre o trem e a plataforma e não impede o fechamento das portas. Se dirige até o ponto de ônibus, sobe naquele que o levará até sua casa, divide espaço com a multidão companheira do segundo turno e, finalmente chega em sua casa. Come o resto do que ainda sobrou de pronto na geladeira, passa pela sala, vai até o quarto e se despede da roupa que o acompanhou ao longo de mais um dia. Entra no banheiro e toma, agora sim, um banho. Pula na cama e tenta dormir. Vira, revira, “desvira” e o sono não vem. Passa a pensar nas milhares de coisas que precisa fazer no dia seguinte. O relógio, que age implacavelmente, desperta avisando um novo dia.


Pula da cama... e a rotina se repete em sentido horário.

domingo, 3 de maio de 2015

Uma pausa no café

Naquele dia acordei às 08h20, assim como fiz rigorosamente durante os últimos 10 anos. Caminhei pelo apartamento silencioso, me dirigi até a cozinha e fervi a água para o café. Encostei-me de costas na pia enquanto aguardava. Ouço o telefone tocar e corro em direção à sala para atender. Do outro lado, uma voz feminina pergunta meu nome. Respondi. Por alguns segundos a ligação fica muda. Novamente perguntei seu nome e, antes mesmo que ouvisse qualquer resposta, ouço um choro. Tentei acalmá-la, mesmo sem qualquer recurso. A ligação cai.

Ainda sem entender o que tinha acontecido, voltei à cozinha. Continuei meu rito matinal e preparei meu café. Antes mesmo do primeiro gole, o telefone volta a tocar. Confesso que pensei em não atender, mas algo me dizia que a reação de choro daquela mulher se deu após a revelação de meu nome. Segundos de indecisão... atendi.

E antes mesmo de eu pronunciar o tradicional “Alô!”, a mulher, com a voz embargada, se identificou. Desta vez, eu é quem ficou mudo. Em minha cabeça, milhões de pensamentos por segundo. Eu mal sabia que aquela ligação viria para por um ponto final em minha rotina de 10 anos.

Clara, a mulher que me ligava às 08h25 daquele sábado, anunciava sua chegada ao Brasil. Mais do que isso, anunciava que os meus últimos 15 anos seriam os mais felizes da minha vida até aqui.



sábado, 2 de maio de 2015