Na varanda de sua casa, Célio, um homem de 35 anos observava a ida e a vinda das pessoas. Alguns o cumprimentavam quando viam, outros não. Ficou ali, parado, pensante, como se o mundo não rodava. Pensava nos momentos em que vivera sua infância e o modo como chegou ao ponto atual.
Na mente, buscou as mais belas lembranças de quando era ainda um garoto. Inocente, sem malícia com um futuro a levar. Trouxe à memória suas relações com as garotas que teve durante o caminho. Momentos felizes, outros nem tanto, mas que certamente fazem parte de seu contexto de vida. Um caso que teve com uma jovem aos 23 anos o remetia a uma recordação especial. Grandes momentos passara com Clara, sua namoradinha do coração.
Embora hoje esteja casado com Lucia e seja pai de três filhos, Guilherme, João e Ana, a grande verdade é que Clara nunca saiu de sua cabeça. Foi com ela que sentiu pela primeira vez a dor do amor. Sentimento sincero que nos transporta as mais diversas sensações – boas e ruins. Lembrou de quando a conheceu e de quando se beijaram pela primeira vez. Célio viveu momentos intensos com Clara, tanto que um dia imaginaram a formar uma família. Não se tratava de uma fantasia jovial, onde no calor das emoções soltava planos descomprometidos. Realmente sentiam naquele momento que teriam uma vida feliz até a velhice de ambos.
Mas pouco tempo depois, por um mistério do corpo, da alma – a estima que um tinha pelo outro se perdeu. Se perdeu em uma ocasião qualquer do dia. Ninguém sabe ao certo os motivos, fato é que o coração de Célio jamais voltou a pulsar da maneira que pulsava por Clara.
Ainda na varanda, uma lágrima descia em seu rosto. Aquele homem não era infeliz com a atual família, pelo contrário. Sua relação com Lucia estava maravilhosamente bem. Mas o resgate de uma história que marcou sua vida era inevitável. Célio não deixava de desejar Lucia, apenas gostava de lembrar de Clara.
Parado no mesmo lugar de início, Célio acendeu um cigarro acompanhado de um copo de uísque. Aquela lágrima que minutos antes tomara sua face, já secara. E a cada trago, a cada gole que dava a leveza do corpo era mais nítido. Naquele momento olhava para a rua sem ponto certo, seus olhos se perderam no horizonte sem a pretensão de olhar qualquer coisa.
Não era comum aquele homem perder horas parado visualizando sabe-se lá o que, porém na contrapartida de seus costumeiros dias, aquele era um momento ímpar. Sentou-se numa cadeira que lhe fazia companhia e estendeu as pernas na mureta da sacada. Ficou ali por mais algum tempo – se levantou e voltou à vida que era de costume.






